Segundo ele, a investigação identificou a presença recorrente do Banco Master nas operações analisadas.

O ex-governador e ex-senador de Mato Grosso, Pedro Taques (PSB), afirmou nesta quarta-feira (25.03), durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado do Senado, que uma investigação iniciada por sindicatos de servidores públicos revelou indícios de irregularidades em operações de crédito consignado e em um acordo milionário firmado entre o Estado e a empresa Oi.

Convocado como testemunha, Taques destacou que atua como advogado de entidades sindicais que representam cerca de 106 mil servidores estaduais e explicou que a apuração começou em novembro de 2024, após relatos de descontos considerados abusivos e práticas financeiras que teriam comprometido a renda dos trabalhadores.

Segundo ele, a investigação identificou a presença recorrente do Banco Master nas operações analisadas. “Nós fomos contratados pelos oito maiores sindicatos do Estado e, a partir daí, começamos a encontrar o Banco Master à nossa frente”, afirmou.

O ex-governador explicou que a apuração foi conduzida por meio de investigação defensiva, instrumento previsto pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que permite a coleta de provas por advogados. A partir disso, segundo ele, foram reunidos documentos e encaminhadas representações a diversos órgãos de controle, como Ministério Público, Polícia Federal, Tribunal de Contas, Banco Central e Secretaria Nacional do Consumidor.

Taques organizou sua apresentação em três eixos principais: o sistema de crédito consignado, a relação entre o Banco Master e fundos ligados à Oi, e operações envolvendo o fundo da BR-163.

Ao detalhar o primeiro eixo, ele traçou uma evolução histórica dos consignados no Brasil e afirmou que houve mudanças estruturais que aumentaram o custo para os servidores. De acordo com Taques, na chamada primeira geração, entre 2003 e 2015, os empréstimos tinham juros mais baixos, variando entre 1,7% e 2,2%, e eram operados por bancos tradicionais, com margem de comprometimento limitada a 30%.

Já na segunda fase, entre 2015 e 2021, houve aumento da margem para 35% e surgimento de novos produtos, como cartões consignados e modalidades de saque, o que teria elevado gradualmente o custo das operações.

Na terceira fase, iniciada a partir de 2022, ele afirmou que o cenário se agravou, com a margem chegando a até 45% e a inclusão de novos públicos, como beneficiários de programas sociais. Segundo ele, os juros passaram a atingir níveis entre 4,7% e 5,5%, ampliando o impacto financeiro sobre os contratantes.

“Isso leva ao colapso da renda e ao superendividamento dos servidores públicos”, declarou.

Taques também afirmou que identificou a atuação de empresas que, segundo ele, não possuem autorização do Banco Central, mas operam no mercado como se fossem instituições financeiras. “Entram satélites do Banco Master, que eu chamo de ‘tamboretes’, que não são bancos. O servidor acredita que está contratando com uma instituição séria, mas não está”, disse.

Ainda sobre esse eixo, o ex-governador relatou que houve uma suspensão temporária dos descontos em folha entre maio e dezembro de 2025, por decisão judicial, diante das suspeitas levantadas. Após nova decisão, os valores passaram a ser descontados, mas depositados em conta vinculada ao Judiciário, para posterior revisão dos contratos.

“O servidor não é caloteiro. Ele quer pagar, mas pagar o que é devido”, afirmou.

Taques sustentou que há indícios de violações ao Código de Defesa do Consumidor e à legislação que trata de crimes contra o sistema financeiro, o que, segundo ele, justificou o envio de representações à Polícia Federal.

No segundo eixo da apresentação, o ex-governador abordou o acordo firmado entre o Estado de Mato Grosso e a empresa Oi, no valor de R$ 308 milhões. Segundo ele, a negociação foi assinada em abril de 2024 e apresenta ilegalidades.

Ele afirmou que a empresa havia perdido disputas judiciais relacionadas ao débito, mas, mesmo assim, o Estado celebrou acordo para pagamento do valor, sem utilização do mecanismo de precatórios. “Pagaram R$ 308 milhões sem precatório”, declarou.

Taques também relatou que o crédito teria sido adquirido anteriormente por um advogado por R$ 80 milhões, o que, segundo ele, levanta questionamentos sobre a diferença de valores envolvidos na transação.

Outro ponto destacado foi o destino dos recursos. De acordo com o ex-governador, o montante foi direcionado a fundos de investimento ligados ao Banco Master, que teriam sido criados, geridos e administrados pela própria instituição.

Segundo ele, os valores foram distribuídos entre dois fundos — Royal Capital e Lotte World — e, posteriormente, transferidos por meio de uma cadeia de operações financeiras até chegar a empresas que, segundo afirmou, têm ligação com pessoas próximas ao Governo do Estado.

Taques declarou que a identificação desse fluxo financeiro foi possível após análise de cerca de 12 mil documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Ele ainda associou o uso de fundos de investimento a possíveis práticas de lavagem de dinheiro, citando relatórios internacionais que apontam esse tipo de estrutura como mecanismo utilizado para ocultação de recursos. “Hoje, a tipologia de lavagem de dinheiro é notadamente fundos de investimento”, afirmou.

Ao longo do depoimento, o ex-governador também fez críticas à atuação de órgãos de fiscalização, especialmente em relação ao controle desses fundos, e afirmou que todos os documentos mencionados estão disponíveis para análise dos senadores.

Fonte : BGM