Vizinhos do Condomínio Vila Nice reclamam do mato alto, proliferação de pragas e insegurança.
Entre casas, prédios e comércios do movimentado Centro-Sul de Cuiabá, uma área abandonada e tomada por matagal chama a atenção e preocupa moradores da região: o Condomínio Vila Nice.

Tem morador que praticamente não consegue abrir a janela por causa dos bichos. Voa barata, entra rato, está um abandono
Construído no início da década de 80 e batizado em homenagem à matriarca da família, Nice de Santanna, o condomínio, que um dia foi completamente habitado, hoje enfrenta um cenário de deterioração em boa parte da estrutura, pelo abandono em meio a uma longa disputa judicial entre familiares.
O impasse gira em torno da divisão e possível venda do imóvel entre os herdeiros da propriedade. Atualmente, o condomínio estaria em fase de liquidação judicial, processo que busca apurar direitos e obrigações para posterior divisão do patrimônio.
Com cerca de 20 casas em ruínas e blocos de apartamentos espaçosos para os padrões atuais, o residencial possui duas entradas diferentes.
ela Rua Coronel Neto é possível acessar os blocos de apartamentos, sendo o bloco A o único que segue habitado. Já pela Rua Nossa Senhora de Santana, a paisagem é dominada pelo abandono, casas vazias e uma vegetação que tomou conta do lugar.
Entre as principais reclamações de moradores e comerciantes vizinhos estão a proliferação de insetos e animais, como ratos, morcegos, baratas, pombos e escorpiões, por causa do matagal e da sensação de insegurança diante do abandono da área de mais de 4 mil m².
A professora de balé Fernanda Frandsen, moradora do Condomínio Moradas da Vila Real há 10 anos, afirmou que o impacto do abandono é grande e que os apartamentos voltados ao residencial são os mais afetados.
“Tem morador que praticamente não consegue abrir a janela por causa dos bichos. Voa barata, entra rato, está um abandono”, afirmou.
Mesmo morando do lado oposto ao Vila Nice, ela mantém as janelas sempre fechadas. Ainda assim, sua casa foi duas vezes invadida por morcegos.
“Um deles ficou pendurado na cortina. Outro caiu ao lado do meu travesseiro enquanto eu dormia. Foi um desespero, um pavor tão grande, que joguei ele, o travesseiro, tudo para fora pela janela”, relembrou.
Outra preocupação é o risco de dengue, segundo ela, especialmente porque o condomínio possui muitos moradores idosos.
Minha mãe já teve. Eu já peguei também. O medo da dengue é real. Se eu ficar acamada, quem vai dar aula para mim? Vou ter que dispensar a turma”, disse.
Além dos problemas sanitários, Fernanda relatou o medo de invasores. “Se um morador de rua pular o muro, está dentro do meu prédio. Tanto que os andares mais baixos, praticamente todos têm grades”, disse.
Uma comerciante vizinha ao condomínio, que preferiu não se identificar, disse estar no ponto há cerca de 15 anos e que furtos são comuns na região.
“É um conluio, pulam e ficam usando drogas ali dentro. Inclusive, o meu vizinho já foi roubado várias vezes”, contou.
“Meu maior medo é de assalto, é ser roubada de noite igual o meu vizinho foi. Fica muito difícil”, acrescentou.
Segundo ela, a última limpeza realizada na propriedade só aconteceu após denúncias e uma notificação da Prefeitura. “Estavam aparecendo muito rato, gambá e mosquito da dengue. A sujeira ali é demais”, disse.
Marcia Ariane dos Santos, funcionária de um salão de beleza há sete meses, afirmou que o forte odor de fezes e urina é o que mais a incomoda.
“O mal cheiro de xixi e fezes é fortíssimo. Já vi pessoas fazendo as necessidades lá. Foi horrível. Sem contar que fica escuro. Para quem vai embora por aqui é perigoso”, disse ela.
Márcia também reclamou da quantidade de insetos e pombos que saem da área abandonada e disse que precisa manter as portas do estabelecimento constantemente fechadas para evitar que eles entrem.
Por dentro do Vila Nice
A professora Cristiane Santanna, uma das herdeiras da propriedade, abriu as portas do Condomínio Vila Nice e mostrou as condições em que se encontra.
Segundo Cristiane, o condomínio passou a ser administrado por seu pai, Magno Santanna, após o falecimento da avó, em 2012. Ele teria mantido o funcionamento do condomínio praticamente sozinho, com o auxílio dos aluguéis pagos por inquilinos e tirando dinheiro do próprio bolso para as manutenções.

Quando meu pai faleceu, em 2021, o condomínio ficou abandonado. Eu ainda tentei administrar, mas praticamente não tinha mais ninguém morando
A professora afirmou que o tio, Paulo Santanna, nunca teve interesse em participar da administração do local e só teria se manifestado após a morte de Magno, quando a família teria passado a ele a administração.
“Quando meu pai faleceu, em 2021, o condomínio ficou abandonado. Eu ainda tentei administrar por um tempo, mas praticamente não tinha mais ninguém morando”, contou Cristiane.
“Nós procuramos um advogado e passamos a administração para o Paulo, porque ele é o sócio remanescente vivo. Mas hoje, o condomínio em si, já foi extinto”, afirmou.
“Paulo nunca se interessou pelo condomínio. Ele é promotor aposentado. Nunca se manifestou para ajudar nas despesas. Meu pai tirava dinheiro do bolso para manter”, completou.
Cristiane ainda mora em um dos apartamentos do condomínio, localizado no Bloco A — área que, segundo ela, foi destinada ao pai, Magno, ainda em vida pelos avós. Já o Bloco B pertence a Paulo e, assim como a área das casas, está desabitado.
Ela afirmou que, junto da mãe, tenta manter a limpeza e a conservação do entorno do bloco habitado, mas diz não ter condições financeiras de arcar com a manutenção completa do condomínio.
A mãe de Cristiane, a professora aposentada Marilene Santanna, também conversou com a reportagem e relembrou com emoção a época em que acompanhou de perto a construção do residencial.
“Era simples, mas tudo habitado. Eu morei em quatro casas diferentes dentro desse condomínio”, contou Marilene.
“Quando foi inaugurado, tinha portaria, porteiro. Era um condomínio muito bom”, completou Cristiane.
O impasse
Hoje, segundo Cristiane, o condomínio está em fase de liquidação judicial. “Ou seja, está apurando os direitos e obrigações e, havendo saldo positivo, dividido entre Paulo e os herdeiros de Magno”, explicou.
Conforme Cristiane e Marilene, diversas tentativas de acordo teriam sido feitas ao longo dos anos, até mesmo com Magno em vida, para dividir o imóvel ou até vender toda a área, mas nenhuma teria avançado.
“Há muito tempo esse condomínio está na Justiça para ser feita uma divisão. Meu pai tentou, porque aí cada um ficava responsável por sua parte e tomaria conta. Mas Paulo nunca aceitou negociação, nem nenhuma das propostas. Por isso, nunca houve acordo”, afirmou Cristiane.
“Nós queremos encerrar esse problema”, completou.

Ver desse jeito é triste. Mas o que eu posso fazer é pedir desculpas aos meus vizinhos
A professora confirmou que o condomínio chegou a ser autuado pela Prefeitura de Cuiabá devido ao matagal no ano passado e só então foi limpo.
“Mas o mato está tomando conta novamente, não só das casas, como da rua. Eu sou professora, não tenho condições de mandar limpar tudo. A limpeza total do condomínio é mais de 5 mil. Fazemos o que podemos para manter limpo”, afirmou Cristiane.
“Eu presenciei tudo isso, ajudei na construção, era tudo habitado e hoje tem árvores crescendo dentro das casas. Ver desse jeito é triste. Mas o que posso fazer é pedir desculpas aos meus vizinhos e dizer que isso não depende da nossa parte. Estamos fazendo o possível”, afirmou a aposentada.
Outro lado
Procurado pela reportagem, Raphael Santanna, filho de Paulo, afirmou que a família não se exime da responsabilidade sobre o condomínio e disse que medidas de limpeza e controle de pragas foram realizadas no ano passado após notificação da Prefeitura de Cuiabá.
“Nós fizemos a poda e limpeza no ano passado. Foram retirados cinco ou seis caminhões de mato de lá”, afirmou.
Segundo ele, além da limpeza, também foi realizado serviço de dedetização química e controle de pragas, com laudo técnico e certificação, fiscalizado pela Prefeitura. Raphael afirmou que, até o momento, não tinha sido informado sobre novas denúncias ou problemas recentes no residencial.
“A partir do momento que a gente toma ciência, a gente age para tentar resolver. Foi o que aconteceu no ano passado, quando a Prefeitura nos procurou”, disse.

A partir do momento que a gente toma ciência, a gente age para tentar resolver.
Ele também alegou dificuldades para acompanhar diariamente a situação do local por morar fora do estado e que seus pais, idosos, também estão se mudando para a cidade em que vive.
“O condomínio Vila Nice não é só meu, é da minha família. Tem outra família, que são meus primos, meu primo também não mora em Cuiabá. Então a gente fica à mercê das informações que chegam”, afirmou.
Raphael explicou ainda que a limpeza completa da área seria financeiramente inviável e que a família precisa identificar os pontos críticos para realizar intervenções pontuais.
A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Sorp) se manifestou por meio de nota e informou que realizará uma nova ação de fiscalização no Condomínio Vila Nice. O local vem sendo monitorado após denúncias de mato alto, acúmulo de lixo, água parada e possíveis riscos à saúde e à segurança dos moradores.
Segundo a Pasta, vistorias realizadas em 2025 e 2026 identificaram estruturas em estado de ruína, vegetação densa, risco estrutural e condições favoráveis à proliferação de doenças como dengue e chikungunya.
O imóvel poderá ser interditado preventivamente e os responsáveis podem ser multados em mais de R$ 10 mil caso as irregularidades não sejam corrigidas.

Vila Nice

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