O advogado Regis Poderoso de Souza, acusado de integrar esquema que desviou R$ 21 milhões do Tribunal de Justiça (TJMT), adotou a mesma estratégia do empresário João Ricci Volpato, suposto líder da organização, e escreveu uma carta ao juízo da 7ª Vara Criminal eximindo sua esposa, Denise Alonso, de qualquer participação no caso. Irmão e mãe de João Ricci, Augusto e Luísa Rios Ricci Volpato se livraram da acusação depois que ele assinou uma carta de próprio punho, ainda em junho do ano passado, assumindo total responsabilidade pelas empesas utilizadas para os possíveis desvios.

Na semana passada (9), então, Regis adotou o mesmo método e encaminhou ao juízo uma declaração jurídica buscando exonerar Denise de qualquer responsabilidade ou dolo.

Deflagrada no ano passado, a operação revelou que João Ricci e um grupo de empresários e advogados fraudavam processos por meio do ajuizamento de ações de cobrança em nome de empresas e, sem o conhecimento das partes rés, simulava o pagamento das dívidas com comprovantes falsos de depósitos judiciais.

No caso do casal Regis e Denise, a ofensiva policial apontou que ele teria atuado em seis processos fraudulentos usando seu token de acesso no Sistema Judicial Eletrônico, e dois em nome dela, no mesmo modo de atuação.

Regis então assinou a carta ao juízo alegando que veio morar em Cuiabá com Denise em 2016 e, em 2018, ela abriu duas lojas de calçados. Em razão das responsabilidades dos negócios e do horário de funcionamento, a jornada de Denise, segundo a peça, ultrapassa 10 horas diárias, o que demanda dedicação integral aos estabelecimentos.

Por isso, Denise teria deixado seu certificado digital (token) sob estrita guarda e responsabilidade de Regis, o autorizando a auxiliá-la em peticionamentos eletrônicos perante o sistema do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

Acontece que Regis confiou e emprestou o certificado digital ao advogado Wagner Vasconcelos de Moraes, também alvo da Operação Sepulcro Caiado, sem o conhecimento ou anuência de Denise.

“Esclareço que Denise Alonso não possui qualquer vínculo ou conhecimento pessoal de nenhum dos envolvidos no processo em questão. Em relação ao Dr. Wagner Vasconcelos de Moraes, ela apenas tem ciência de sua existência por meu intermédio, não mantendo com ele qualquer relação de amizade, proximidade ou vínculo de qualquer natureza. Por fim, declaro que também não conheço nenhum dos demais envolvidos no referido processo, limitando-se meu contato estritamente à pessoa de Wagner Vasconcelos de Moraes, a quem o dispositivo foi cedido de forma ocasional e de boa-fé”, sustentou Regis com intuito de exonerar Denise de qualquer ilação indiciária de dolo ou culpa na responsabilidade e guarda dos tokens.

No final de maio, o juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, determinou a exclusão de Augusto Frederico Volpato e sua mãe, Luiza Rios Volpato, da denúncia proveniente da Operação Sepulcro Caiado, que acusa o primogênito João Ricci Volpato de orquestrar esquema que desviou R$ 21 milhões da conta única do Tribunal de Justiça (TJMT) por meio de processos forjados entre advogados e empresários.

O magistrado considerou que a denúncia ministerial falhou em descrever quais condutas específicas teriam sido praticadas por Augusto e Luíza.

Na ordem, Jean Garcia anotou que o Ministério Público acusou mãe e filho apenas por ostentarem condição de sócios de duas empresas de João, sem provas de participação direta ou administração efetiva.

Não houve imputação precisa se Luíza e Augusto teriam ajuizado ações judiciais, assinado procurações, negociado com vítimas, apresentado documentos falsos, emitido comprovantes forjados, nem se mantiveram contato com os demais investigados ou com servidores do Tribunal, ou receberam qualquer valor rastreável até os alvarás sacados indevidamente da Conta Única.

Isso porque o órgão ministerial se limitou a acusá-los como integrantes da organização apenas da seguinte forma: Augusto – “Função: Irmão de João Gustavo, sócio da Labor Fomento. Atuação: Movimentou grandes valores, aparece em planilhas do esquema, alegou desconhecimento”; Luíza – “Função: Mãe de João Gustavo, sócia da RV Cobrança. Atuação: Recebia valores das empresas, alegou desconhecimento, mas beneficiou-se financeiramente.”

Além disso, o juiz considerou que o próprio primogênito confessou que era o único responsável pelas empresas Labor Fomento Mercantil LTDA – ME e RV Empresa de Cobrança LTDA – ME, possivelmente usadas para perpetração do rombo milionário.

Em julho, quando da deflagração da Operação, João foi preso e, durante audiência de custódia, escreveu uma carta de próprio punho afirmando que a gestão das companhias estava sob sua gestão exclusiva, e que mãe e irmão não detinham domínio algum sobre elas.

Jean Garcia considerou a carta porque fora escrita fora de contexto de negociação de benefícios processuais ou colaboração premiada, tendo sido escrita espontaneamente no calor da operação pelo principal alvo da polícia, sem quaisquer estímulos externos que pudessem influenciá-lo.

“Esse conteúdo foi reiterado pelo próprio JOÃO GUSTAVO durante a audiência de custódia, ocasião em que assumiu, perante o Juízo, a exclusividade da gestão das empresas, desvinculando expressamente os familiares dos fatos investigados e assumindo para si a responsabilidade pelos atos praticados em nome das pessoas jurídicas”, nos termos da decisão.

Além João Ricci Volpato, são réus na ação o servidor afastado do TJ, Mauro Ferreira Filho, e os advogados Wagner Vasconcelos de Moraes, Melissa França Praeiro Vasconcelos de Moraes, Régis Poderoso de Souza, Themis Lessa da Silva, João Miguel da Costa Neto e Denise Alonso.

Eles respondem por crimes de integrar organização criminosa, estelionato e peculato. A Sepulcro Caiado foi deflagrada pela Polícia Civil no dia 30 de julho de 2025. Segundo as investigações, o grupo ajuizava ações de cobrança em nome das empresas e, sem o conhecimento das partes rés, simulava o pagamento das dívidas com comprovantes falsos de depósitos judiciais.

O servidor Mauro Ferreira, com acesso à conta única do tribunal, teria viabilizado o desvio ao transferir valores para contas vinculadas a processos fraudulentos, permitindo a liberação ilegal de alvarás.

Pelo menos 17 processos, protocolados entre 2018 e 2022, estão sob análise. A fraude teria sido descoberta após o TJMT alterar o sistema de repasse de valores em 2023, o que teria inviabilizado a continuidade do esquema. Estima-se que os envolvidos tenham surrupiado cerca de R$ 21 milhões dos cofres da Corte Mato-grossense.