O juiz José Mauro Nagib Jorge acatou ordem do Tribunal de Justiça (TJMT) e mandou afastar das atividades da Rotam os quatro militares acusados de forjarem um confronto em que mataram uma vítima, e tentaram contra outras duas, para acobertar o assassinato do advogado Renato Nery. Trata-se de Jorge Rodrigo Martins, Leandro Cardoso, Waison Alesandro e Wekcerlley Benevides de Oliveira.
Em dezembro do ano passado, o quarteto foi autorizado a voltar à ativa. Porém, nova ordem do TJMT reverteu tal concessão para restabelecer as medidas cautelares impostas. Desta feita, o juiz determinou que os quatro sejam imediatamente submetidos ao monitoramento eletrônico e restritos exclusivamente a funções administrativas, proibindo o uso de armas e o patrulhamento ostensivo. Nagib exigiu ainda que o Comando-Geral da Polícia Militar adote providências urgentes para recolher armamentos e fiscalizar o cumprimento das restrições impostas.
No último dia 12, o Tribunal de Justiça (TJMT), sob relatoria da desembargadora Juanita Cruz Clait Duarte, constatou que o retorno dos acusados às atividades operacionais, com porte de arma de fogo, mostra-se incompatível com os critérios de adequação e necessidade, bem como que as funções ostensivas podem potencializar o risco de intimidação indireta de testemunhas e de reiteração de condutas abusivas relacionadas ao uso da força estatal.
“A mera proibição de contato com testemunhas, sem mecanismos eficazes de fiscalização, não é suficiente para neutralizar os riscos identificados. 8. A preservação da credibilidade das instituições e da lisura da persecução penal prevalece sobre o interesse público no aproveitamento imediato da força de trabalho policial. A gravidade concreta de imputações envolvendo simulação de confronto armado e manipulação probatória justifica o restabelecimento de medidas cautelares diversas da prisão. É inadequado o retorno de agentes de segurança às atividades operacionais com porte de arma de fogo quando evidenciado risco à ordem pública ou à instrução criminal”, nos termos do acórdão.
Simulação no Caso Nery e grupo de extermínio
“Acabei de trocar tiro aqui”; “o cara tomou disparo no peito, e o filho da puta não morreu”; “eu acho que deve tá dando divergência em nosso depoimento”; “Ele só pensa em matar, matar, matar”: relatório forense feito nos celulares dos agentes da Rotam constituiu a prova técnica necessária para o Ministério Público reforçar o pedido de prisão e oferecer denúncia contra eles.
Assinada em junho de 2025 pelo promotor Henrique Pugliesi, a acusação aponta que Jorge Rodrigo Martins, Wailson Alessandro Medeiros Ramos, Wekcerlley Benevides de Oliveira e Leandro Cardoso, policiais militares da Rotam, integravam um grupo de extermínio chamado “Gol Branco”.
Foi no contexto deste grupo de WhatsApp que o relatório encontrou os diálogos em questão, os quais foram usados pelo promotor na denúncia. Vale lembrar que Leandro Cardoso e Jorge Rodrigo já são denunciados no âmbito da Operação Simulacrum, que investiga justamente um grupo de “mercenários” formados por militares.
As investigações revelaram que os policiais teriam forjado um confronto policial para ocultar a arma usada no assassinato de Nery e alterar a cena do outro crime, o que gerou contradições, indicando que se tratou de uma simulação feita para justificar a posse da pistola Glock, calibre 9mm, número de série VPL521, e fazer crer que pertenceria aos ” tais criminosos” que entraram em confronto com eles.
O relatório feito no celular Xiaomi Poco X6 de Wailson demonstrou os elementos de prova cruciais para caracterização dos crimes imputados ao grupo: homicídio consumado, homicídio tentado, organização criminosa, obstrução da justiça, falsidade ideológica, abuso de autoridade e porte ilegal de arma de fogo.
Uma foto do advogado Renato Nery foi encontrada salva no dispositivo no dia 6 de julho de 2024, apenas um dia após ele ser assassinato, o que evidenciou que o grupo tinha conhecimento prévio do crime e possível envolvimento direto. Também foram encontradas pesquisas sobre a morte de Renato em 2025, demonstrando interesse continuado no caso.
Os áudios encontrados no aparelho são comprometedores. Num dos diálogos, Wailson chegou a afirmar categoricamente: “Acabei de trocar tiro aqui nega!”, seguido de “Acabei de trocar tiro tá?”. No dia seguinte, ele revelou detalhes técnicos sobre ferimentos causados ao interlocutor: “cara tomou um disparo na porra do peito, transfixou, deu Hemotórax que é sangue né, drenaram o sangue dele, o filho da puta não morreu!”.
Em outra conversa, causou espanto no promotor a naturalidade como eles banalizavam as vidas que ceifaram: “mas tá bom, tá de boa, mas tem aquela coisa, todo confronto tem alguém morto, eu estou de boa, falei para os caras, pedi desculpa pela cagada de pau, mas acho que não foi cagada de pau não!”. A declaração, para Henrique, demonstra a “naturalização da violência letal e a consciência de que perseguições policiais devem resultar em mortes”.
Foi no celular de Leandro Cardoso, réu na Simulacrum, que o relatório encontrou o grupo “Gol Branco”, criado no dia 12 de julho de 2024, seis dias após a morte de Nery e o dia em que eles forjaram o confronto.
Nery foi executado a mando dos produtores rurais Cesar Sechi e Julinere Goulart Bentos. Os executores foram o também militar da Rotam, Heron Teixeira, e seu caseiro, Alex Cardoso, responsável por puxar o gatilho. As investigações concluíram que Jackson Barbosa e Ícaro Nathan Santos Ferreira, ambos militares, intermediaram o assassinato, sendo o primeiro como o principal intermediário entre o casal mandante, e o núcleo executor. Foi Jackson que ofereceu o “serviço” a Heron mediante R$ 200 mil e Ícaro que emprestou a arma.















