Sociedade entre pai e ex-colega de gabinete lucra com terra que o próprio grupo familiar chamou de “fardo sem retorno” na Justiça

Acusado de irregularidades pelo próprio prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), o ex-secretário municipal de Educação Amauri Monge Fernandes comprou, por meio do filho, uma fazenda avaliada em mais de R$ 12 milhões, segundo processo judicial e documentos obtidos com exclusividade pela reportagem do VG Notícias. A propriedade, batizada de Fazenda Quilombinho 2, foi adquirida em 18 de julho de 2022, por Bruno Frezzarin Andrade Monge Fernandes, 31 anos, filho de Amauri, e transferida para o nome do pai em documento emitido em 24 de junho de 2026.

Em outubro de 2024, o empresário Eduardo Scutti Garbugio, 22 anos, e a empresa BGA Serviços ME entraram na Justiça de Chapada dos Guimarães pedindo a resolução do contrato de compra da fazenda. O motivo alegado foi que a área estaria praticamente sobreposta ao Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e a uma área da União em processo de desapropriação pelo ICMBio, tornando o negócio inviável.

Pouco mais de um ano, em dezembro de 2025, um contrato particular assinado por Amauri revela que ele passou a morar e pretender explorar comercialmente essa mesma fazenda, com um sócio-gestor. Segundo o Cadastro Ambiental Rural mais recente, de 24 de junho de 2026, o próprio Amauri consta como coproprietário da área ao lado de Eduardo Scutti Garbugio, autor da ação que classificou a terra como “pesado fardo sem nenhum retorno financeiro”.

 

“Enquanto Eduardo Scutti Garbugio e Bruno Fernandes, filho de Amauri Monge Fernandes, processavam os antigos vendedores alegando que a terra era imprestável por estar dentro de parque nacional, o próprio Amauri se tornou proprietário dela e montou uma sociedade privada de exploração agropecuária com um ex-subordinado da Secretaria de Educação “.

O sócio escolhido por Amauri para gerir esse empreendimento, Ronald Kemmp Santin Borges, não é um desconhecido, os dois trabalharam juntos na cúpula da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC-MT) e foram exonerados no mesmo decreto, no mesmo dia. A sociedade rural entre eles é firmada justamente no período em que Amauri, então à frente da Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá, passa a ser publicamente acusado de gerir com irregularidades uma compra de livros didáticos de até R$ 80 milhões.

É esse cruzamento, entre terra em litígio judicial declarada imprestável, mas monetizada em contrato privado, um sócio-gestor vindo do mesmo gabinete de governo e um histórico recente de denúncias na gestão de recursos públicos da educação, que sustenta esta apuração.

QUEM É AMAURI MONGE FERNANDES

Antes de chegar à Chapada dos Guimarães como dono de terras, Amauri Monge Fernandes construiu carreira na gestão pública da educação. Paulistano, bacharel em Direito, com mestrado em Administração e Gestão Pública pela FGV e doutorado em andamento pela Universidade de Lisboa, ele teve uma passagem contestada pelo Ministério Público do Paraná: segundo o Sintep-MT, foi demitido a pedido do MP-PR do cargo de secretário regional de Educação do Consórcio de Desenvolvimento e Inovação do Norte do Paraná (Codinorp), onde ganhava R$ 100 mil por mês, após questionamentos sobre o direcionamento de recursos para aquisição de material didático sob a rubrica “Recursos Livres para a Educação”.

Mesmo assim, foi trazido para Mato Grosso pelo então governador Mauro Mendes e assumiu, a partir de novembro de 2020, o cargo de secretário adjunto executivo da SEDUC-MT, posição que ocupou até fevereiro de 2024, quando foi exonerado em decreto que também desligou outros 27 servidores do Estado.

Em 2025, já fora do governo estadual, foi nomeado pelo prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), secretário adjunto e depois titular da Secretaria Municipal de Educação (SME), cargo do qual pediu exoneração em abril de 2026 para atuar na pré-campanha do ex-secretário estadual Alan Porto.

Fonte : VGN