Sumiço de documento pericial leva defesa a questionar integridade das provas.
Um dos laudos periciais produzidos a partir da extração de dados do celular do advogado Roberto Zampieri, assassinato em dezembro de 2023, chegou a desaparecer da plataforma digital onde estava armazenado e precisou ser recarregado posteriormente. O episódio passou a integrar a estratégia da defesa do fazendeiro Aníbal Manoel Laurindo, apontado como suposto mandante do homicídio, que pediu à Justiça a suspensão do prazo para apresentação da resposta à acusação e acesso a documentos que considera essenciais para o exercício da ampla defesa.
Os advogados dele alegam que o processo possui mais de 22 mil páginas e reúne elementos produzidos pela Polícia Civil, Polícia Federal e Supremo Tribunal Federal (STF). A defesa sustenta que parte do acervo probatório não está integralmente disponível ou depende de diligências judiciais para ser acessada.
Entre os principais questionamentos está o Laudo Pericial “nº 214.2.16….-A01”, elaborado pela Politec a partir da extração de dados de aparelhos celulares apreendidos durante as investigações. Segundo os advogados, em julho de 2024 a própria escrivania certificou que o link disponibilizado para acesso ao material estava vazio, indicando que o conteúdo havia desaparecido da plataforma digital. Posteriormente, o arquivo foi novamente carregado.
Com base nesse fato, a defesa requereu que a Justiça determine à Politec o fornecimento dos registros de integridade dos arquivos digitais, conhecidos como “hashes SHA-256”, além dos logs de acesso à plataforma utilizada para armazenamento dos documentos. Os advogados argumentam que a medida é necessária para verificar se o material atualmente disponível é exatamente o mesmo que foi originalmente extraído dos dispositivos.
Outro pedido envolve a juntada do documento que teria autorizado o acesso ao celular de Roberto Zampieri. Segundo a defesa, os autos fazem referência a um termo de autorização para análise do aparelho, mas não esclarecem se o acesso foi autorizado por decisão judicial ou mediante consentimento de familiares da vítima. Os advogados sustentam que a distinção é relevante para a avaliação da legalidade das provas produzidas a partir do telefone.
A defesa também requer acesso integral ao Relatório de Inteligência Financeira (RIF), produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), além da disponibilização de extratos bancários completos relacionados à movimentação financeira atribuída ao casal investigado.
Os advogados afirmam que a acusação utiliza movimentações bancárias para sustentar a tese de que recursos teriam sido empregados para financiar o homicídio. Entretanto, alegam que os documentos completos demonstrariam a existência de atividades patrimoniais e imobiliárias lícitas capazes de justificar os valores movimentados.
Defesa de Elenice
Em manifestação separada, a defesa de Elenice Ballarotti Laurindo, esposa de Aníbal, pediu o trancamento da ação penal em relação à empresária, sob o argumento de ausência de justa causa para o prosseguimento do processo.
Os advogados sustentam que Elenice não foi formalmente indiciada em nenhuma das etapas da investigação conduzida pela Polícia Civil, pela Polícia Federal ou no âmbito do inquérito que tramitou no Supremo. Segundo a defesa, a denúncia apresentada pelo Ministério Público não aponta qualquer ato concreto praticado por ela que demonstre adesão ao suposto plano criminoso.
Entre os elementos questionados está uma linha telefônica registrada em nome de Elenice. Conforme a defesa, documentos produzidos pela própria Polícia Civil indicariam que o número era efetivamente utilizado por Aníbal Laurindo, razão pela qual ligações atribuídas à empresária não poderiam ser automaticamente interpretadas como contato direto dela com outros investigados.
Outro ponto contestado refere-se a movimentações financeiras realizadas em contas de titularidade de Elenice. Os advogados afirmam que Aníbal possuía procuração pública com amplos poderes para movimentar as contas bancárias da esposa, circunstância que afastaria a conclusão de que ela tinha conhecimento ou controle sobre os valores utilizados.
A defesa também minimiza a relevância de uma transferência via Pix no valor de R$ 2 mil para Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, apontado pelas investigações como líder do chamado “Comando C4”. Segundo os advogados, a operação ocorreu quase três meses antes do assassinato de Zampieri e não há qualquer prova que demonstre ligação entre o valor transferido e o crime.
Outro elemento citado pelo Ministério Público é uma mensagem enviada por Elenice a uma agência de viagens solicitando alteração de passagem aérea para uma pessoa identificada como “amigo do Aníbal”. Para a defesa, trata-se de um ato rotineiro e incompatível com a tese de participação em uma organização criminosa voltada à execução do homicídio.
Operação Sisamnes
O caso integra as investigações da Operação Sisamnes, conduzida pela Polícia Federal. A apuração teve início após o assassinato do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em dezembro de 2023, em Cuiabá.
Segundo os investigadores, o crime teria sido motivado por uma disputa envolvendo a Fazenda Lagoa Azul, avaliada em aproximadamente R$ 100 milhões. A análise do conteúdo extraído do celular da vítima revelou indícios de uma suposta rede de negociações ilícitas envolvendo venda de decisões judiciais, monitoramento clandestino e articulações entre empresários, intermediários e agentes públicos.
Aníbal Manoel está preso desde maio de 2025 e é apontado pelas investigações como um dos supostos mandantes do homicídio. Já Elenice teve a prisão preventiva decretada durante as investigações, mas a medida foi posteriormente revogada por decisão judicial.















