Wanderley Cerqueira afirma que deu ‘cheque em branco’ de R$ 655 milhões à prefeita, expõe restos a pagar de R$ 113 milhões e rebate acusação de engessar a gestão

A Câmara deu um cheque em branco para a prefeita só esse ano de R$ 155 milhões de remanejamento. E no ano passado aprovamos 25%, que dá R$ 500 milhões no orçamento. Ela ainda entrou pedindo mais 20%, mais R$ 407 milhões, e a gente assustou“. A frase é do presidente da Câmara Municipal de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira (MDB), e escancara a guerra aberta contra a prefeita Flávia Moretti (PL) após a gestora decretar situação de calamidade financeira e acusar os vereadores de “engessar” a prefeitura.

Acusado por Moretti de travar projetos no Legislativo e agravar a crise na cidade, o parlamentar foi às redes sociais com números na mão para desmentir a narrativa do Paço Municipal. Além de expor que a Casa autorizou mais de R$ 655 milhões em manobras orçamentárias entre o ano passado e o atual, Cerqueira revelou um dado alarmante do balanço financeiro que chegou ao Parlamento: a gestão acumula R$ 113 milhões em restos a pagar.

Eu também quero saber: para onde está indo esse dinheiro?“, disparou Wanderley, questionando o destino das verbas públicas diante do colapso nos serviços básicos.

O estopim para a decretação de calamidade ocorreu após o presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), desembargador José Zuquim Nogueira, determinar, em 16 de julho, o sequestro de R$ 19,7 milhões das contas do município e a retenção de repasses do FPM e do ICMS devido ao não pagamento de precatórios judiciais.

O magistrado acionou o Ministério Público (MPMT) e o Tribunal de Contas (TCE-MT) para investigarem Flávia Moretti por suposto ato de improbidade administrativa e violação da Lei de Responsabilidade Fiscal. Como resposta ao cerco do Judiciário, a prefeita publicou dois decretos de calamidade financeira por 180 dias, atingindo a administração direta e o Departamento de Água e Esgoto (DAE), e empurrou a responsabilidade para a Câmara.

“Nunca vi isso na minha vida”

Wanderley Cerqueira rebateu as acusações ponto a ponto e subiu o tom contra o que classificou como falta de planejamento da administração. “Eu nasci e criei em Várzea Grande e nunca vi um decreto de calamidade financeira aqui. Eu também estou assustado. Uma gestão que só está pagando folha, não tem um tapa-buraco, o Pronto-Socorro não está funcionando por falta de medicamentos, uma cidade suja… É uma gestão que não teve planejamento“, criticou.

O presidente detalhou que, de cerca de 50 projetos enviados pela prefeita, 42 foram aprovados de imediato e seis retornaram ao Executivo apenas para adequações antes de receberem o aval final. A única matéria rejeitada pelo plenário foi a proposta para aumentar a alíquota do ISSQN de 2% para 5%.

Ia arrebentar o empresário de Várzea Grande, aquele que gera emprego e renda. A Câmara entendeu que o empresário não aguenta mais pagar imposto“, justificou Cerqueira.

Com os repasses estaduais e federais sob bloqueio judicial, dívidas acumuladas e acusações mútuas sobre o uso do orçamento, o impasse deixa Várzea Grande travada. Os órgãos de controle investigam as contas da Prefeitura.