Do “intensivão” para aprender português às caminhadas disfarçado na orla da Barra da Tijuca, técnico se insere na cultura do país e cativa pessoas ao redor com jeito leve e bem humorado.

É tradição na seleção brasileira: quando um jogador entra na lista de convocados pela primeira vez, ele passa por um ritual de batismo. Na concentração, após o jantar, precisa subir na cadeira, se apresentar perante todo o grupo e cumprir uma série de desafios, como contar uma piada ou cantar uma música.

Num destes trotes, na última Data Fifa, Carlo Ancelotti surpreendeu a todos que estavam ao redor. Um dos novatos da Seleção se enrolou com a letra do Hino Nacional, provocando risadas e gozações. Foi neste momento que o treinador italiano interrompeu:

– Espera aí que eu vou ensinar vocês.

E então, fingindo naturalidade, puxou o “Ouviram do Ipiranga…”. A delegação foi à loucura.

– Em todas as convocações nós distribuímos um manual com orientações, normas internas, e na contracapa dele tem o Hino Nacional. O mister leu uma parte da letra, mas outra ele cantou de cabeça. No final, disse que até estar melhor – conta Rodrigo Caetano, diretor de seleções masculinas da CBF.

O episódio ajuda a ilustrar como Ancelotti, aos 66 anos, se esforça para se integrar ao grupo da Seleção e também à cultura brasileira.

Com a experiência de quem passou – e venceu – por clubes de diferentes países, como Alemanha, Espanha, Inglaterra e França, Ancelotti entende que essa conexão é fundamental para o sucesso de seu trabalho.

E mais do que isso: o italiano encontrou prazer nas belezas naturais e sabores brasileiros, com caminhadas na orla da praia e idas a churrascarias.

Após um longo flerte, idas e vindas, o técnico foi anunciado pela CBF há um ano. Gostou tanto que quer ficar mais: tem acordo alinhado para renovar contrato com a Seleção até a Copa de 2030.

“Intensivão” de português

 

Antes de mesmo de desembarcar no Brasil, Ancelotti definiu uma prioridade: aprender o idioma local o quanto antes.

Por isso, contratou um professor de português particular e, entre julho e agosto, fez quase 20 aulas por videoconferência. O foco inicial foi aprender o vocabulário específico do futebol, para se comunicar melhor em entrevistas e no dia a dia com atletas e membros da CBF.

Nos períodos em que ficou fora do Brasil, Ancelotti recorreu a um aplicativo de smartphone para reforçar o aprendizado. Nos momentos em que esteve no país, fez questão de falar em português, para praticar o idioma ao máximo. Quem tentava conversar com ele em espanhol era logo repreendido.

– Chegamos a fazer quatro aulas por semana, até mesmo de sábado. Ele queria estar bem preparado para a segunda entrevista coletiva, que foi no fim de agosto – relembrou Roberto Piantino, professor do treinador.

– O Carlo tem facilidade para aprender e já tinha uma base do português por conta da proximidade com o espanhol. Ao mesmo tempo que isso ajuda no aprendizado, atrapalha um pouco pela semelhança, que gera confusões. A língua dominante, que no caso dele era o espanhol, acaba prevalecendo em alguns momentos – comentou o professor.

Em 2026, com mais compromissos relacionados à Copa do Mundo, Ancelotti diminuiu a frequência das aulas, mas segue dedicado a melhorar o português – assim como os estrangeiros que chegaram com ele à seleção brasileira.

– A comunicação dele está mais fluída, o avanço é nítido, apesar de pontos que ele mesmo reconhece que tem mais dificuldades, que são os verbos no passado – afirmou Roberto Piantino, que descreve o aluno como dedicado, pontual e bem humorado.

Vida carioca

 

Neste primeiro ano à frente da seleção brasileira, Ancelotti se dividiu entre Vancouver, no Canadá, onde reside com a esposa, e a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, próximo da sede da CBF.

A experiência de viver perto da praia encantou o treinador, que escolheu um apartamento de frente para o mar.

A fama e os compromissos profissionais dificultaram, mas não impediram o italiano de desfrutar o litoral. Para não chamar a atenção, Ancelotti acordou cedo e usou boné como disfarce para algumas caminhadas na orla.

Além da natureza, a gastronomia brasileira também conquistou o treinador, que tem na culinária uma de suas maiores paixões.

– Ele é fanático por carne! Sempre pede mais selada por fora e mal passada por dentro. Também gosta de legumes na brasa e come muita salada verde. Mas o principal é a polenta. Eu achava que ele preferia a polenta cremosa, mas um dia levamos a frita e ele adorou – contou Marcio Dalloglio, gerente da churrascaria Mocellin Steakhouse, um dos restaurantes prediletos de Ancelotti no Brasil.

As refeições costumam ser acompanhadas por vinho, com moderação, mas o técnico também gostou da cerveja brasileira, à qual recorre nos dias mais quentes.

Sempre que vai à churrascaria, Ancelotti avisa com antecedência e pede a reserva de um espaço mais privativo para ele e seus acompanhantes. Ainda assim, faz questão de atender aos fãs e funcionários do restaurante, tirando fotos e distribuindo autógrafos.

– Ele parece fechado, mas é muito gente boa. Quem olha assim acha que é um cara bravo, mas o coração é gigante. Ele fala que gosta muito do Brasil e contou que curtiu conhecer nosso Carnaval. Disse que todo mundo deveria ir pelo menos uma vez na vida – relatou Marcio Dalloglio.

Uma das poucas críticas de Ancelotti em relação a gastronomia brasileira é de que as massas daqui são mais cozidas do que deveriam, em sua opinião. Como um bom italiano, ele prefere as pastas “al dente”.

O técnico também tem como hobby cozinhar e frequentemente promete preparar almoços e jantares para os amigos e colegas do futebol – embora muitas das promessas ainda não tenham sido cumpridas por falta de tempo.

Liderança tranquila

 

Tanto subordinados quanto superiores de Ancelotti na Seleção utilizam dos mesmos adjetivos para descrever o treinador: calmo, leve, simples, agregador.

Também tem um lado exigente com os atletas e em relação às condições de trabalho acordadas com a direção. Porém, sem pesar o clima.

– É um cara muito tranquilo, mas também muito convicto nas suas ideias. Algumas pessoas passam a ideia de que ele é o “paizão”, mas ele não é apenas isso, é muito mais. É um líder que envolve as pessoas, que ouve a todos, mas sempre se posiciona ao final. Também é um profissional que sabe delegar e que não potencializa aqueles pequenos problemas que são comuns no dia a dia – explicou Rodrigo Caetano.

– Ele está muito feliz, de bem com a vida, realizado na Seleção. No primeiro momento, quando ninguém o conhecia, a gente ficava na dúvida sobre como seria a relação, mas ele chegou com leveza e bom humor, deixando todo mundo à vontade para trabalhar. É um técnico que valoriza e escuta os profissionais de todas as áreas – relatou o médico Rodrigo Lasmar.

Velho conhecido e homem de confiança do “mister”, Casemiro também conta uma passagem marcante com Ancelotti no vestiário da Seleção: